Trabalhos apresentados na exposição "O que a imagem não revela"
Isla, São Paulo, outubro de 2017
 • Há mais coisas entre o Céu e a Terra...

Há mais coisas entre o Céu e a Terra...   |  There are more things in Heaven and Earth than...

O fato de que nossa percepção da realidade está limitada a uma gama entre tantas outras na multiplicidade do espectro perceptivo  existente na natureza, nos coloca diante da total relativização das mais sólidas certezas. O real só existe como tal diante do filtro dos sentidos; então, uma mesma situação produzirá tantas versões da realidade quanto diferentes forem os sentidos que a percebe.

Enquanto descia a colina do Bergpark em Kassel buscando a saída do parque para pegar o trem de volta à cidade, por um breve momento me distanciei do caminho público e, então, me deparei com uma cena inusitada. Uma árvore aparentava ter um olho em seu tronco, mas não estava claro se a marca era natural ou feita por humanos. Logo me pus a fotografar. Ao contornar a árvore, encontrei algo mais estranho ainda: uma construção precária feita com um amontoado de galhos formando uma espécie de cabana. No entanto, não chegava a ser propriamente um abrigo, pois além de ser baixa, as frestas entre os galhos não estavam cobertas. A curiosidade despertou ao mesmo tempo euforia e medo. Quem poderia ter construído algo assim? Qual seria o propósito disso? Há quanto tempo estava ali?
 
Os calafrios em minha espinha reforçavam a impressão de que a passagem pela terra dos irmãos Grimm faz jus às lendas fantásticas.

Fotografia impressa com pigmento mineral em papel algodão costurada sobre feltro preso em estrutura de madeira,

ocultando a segunda imagem impressa na mesma técnica medindo 50cm x 75cm. 2017.

Em "Há mais coisas entre o Céu e a Terra..." é necessário levantar o feltro para ver a imagem escondida.

• Entidade

Intrigada por aquela espécie de cabana num cenário tão peculiar, mal percebi que anoitecia rapidamente. De repente, fui surpreendida pela percepção de que estava sozinha no meio do parque totalmente escuro. Ainda faltava caminhar bastante para chegar na rota que me conduziria ao trem de volta à cidade, e mal podia avistar as únicas luzes vindas das construções ao longe na estrada. Tomada por adrenalina e medo, desci correndo a colina lutando contra o tempo para reconhecer o caminho de volta no crepúsculo. Foi quando me deparei com esta árvore e tive que me render à imponência de sua presença. Apesar da pressa, parei para contempla-la um pouco. Com certa reverência, mentalmente pedi licença para representa-la.  

Entidade (Bergpark, Kassel)
Fotografia impressa com pigmento mineral em papel algodão, pregada sobre base de madeira. 40cm x 50cm, 2017.

• putukusi


(se existe tanta ambiguidade em nossa percepção da realidade o que dirá naquilo que nos atinge via imagens? )

A captura de cena deste trabalho foi realizada anos antes dos outros dois que acabo de descrever. Quando Julie Dumont, curadora de "O que A Imagem Não Revela", me contou sobre o tema logo lembrei desta filmagem que fiz em Machu Pichu em 2011. Naquela ocasião, subitamente caiu uma chuva intensa, mas por sorte eu estava perto de um dos poucos lugares cobertos lá, a "Casa de los Guardianes". A pequena construção possui três janelas que emolduram a linda vista para Putukusi, uma montanha sagrada para os Incas (o terceiro “Apu”, junto com Machu Pichu e Wayna Pichu). Porém, a única coisa que podíamos ver era uma densa camada branca; parecíamos estar dentro das nuvens. Então, montei o tripé e comecei a fotografar em intervalos de segundos (time-lapse). Lembro de ouvir pessoas ao meu lado zombando que nada apareceria nas minhas imagens. Apenas sorri,  com a certeza de que a alteração da passagem do tempo na gravação revelaria cenas que nossos olhos não podiam perceber ao vivo.

 

Putukusi. Vídeo. Duração: 7min. 2011-2017

© 2017 por Denise Gadelha.

  • Black Facebook Icon
  • Black Instagram Icon